Sexta-feira, 4 de Julho de 2008

Peregrinar

No próximo fim-de-semana, a Paróquia do Santíssimo Sacramento irá em peregrinação a Fátima. E é sobre esta palavra - peregrinar - que hoje meditaremos, utilizando para o efeito um texto de Lourenço de Almeida.

 

Peregrinar é o mesmo que viver. Parar é morrer. Andar é estar vivo. Peregrinar é caminhar per agros, quer dizer, pelos campos, a caminho de um lugar sagrado. Mas só é peregrino quem caminha inquieto, com espírito de busca, de procura. A peregrinação há-de envolver um certo esforço físico e um certo grau de risco. O esforço físico leva o peregrino a desprender-se mais facilmente do acessório; um certo risco, que é hoje bem menor do que antes, quando o risco de viajar por terras desconhecidas e longínquas era grande, e que ajuda o peregrino a concentrar-se no caminho que está a fazer, provavelmente acompanhado por outros. O esforço físico e algum risco predispõem o peregrino a concentrar-se no essencial do dia-a-dia e da sua vida. E o que é importante na vida? Caminhar, ir em frente, levantar-se quando se cai, continuar, dar a mãos aos outros... Tanto e tão pouco!

 

E o silêncio, esse jejum de alma, esse espelho de nós próprios, essa circunstância que nos faz falar connosco e nos permite ouvir a Deus, é também um bem inquestionável, presente na peregrinação e que a vida contemporânea nos nega. A todo o momento afogamo-nos em ruído violento e entorpecedor: no bar, no café, no restaurante, no trabalho, na praia, em casa... Temos medo do silêncio, de olhar para dentro de nós, de olhar para fora, para os outros, olhos nos olhos. Caminhar per agros (peregrinar), em silêncio, é ir acordando para a Vida.

 

Uma peregrinação é uma figuração da nossa própria vida: caminhar em frente com os olhos postos na linha do horizonte onde a Terra toca o Céu, mas sempre com os pés bem assentes no chão. Quando o caminho tem muitas pedras, não é mau olhar também de quando em quando para o chão, para não dar nelas grandes topadas, mas o mais importante é olhar em frente, a distância, para ver para onde vamos. 

 

Um turista, o próprio nome o diz, faz um tour, faz uma volta, uma volta de 360º. Sai de sua casa, vê outras terras, mas quando volta, volta exactamente ao ponto de onde partiu. Nada muda na sua vida: estava e continua a estar no mesmo lugar. É exactamente a mesma pessoa que era. Nada mudou nele. Viu só com os olhos. Um caminhante não faz uma volta, faz uma viagem, deslocando-se de um lugar para outro. O peregrino é um caminhante que almeja chegar a um certo lugar. Não se preocupa muito com os frios e calores que há-de suportar, nem onde há-de buscar poiso para descansar ou para se alimentar. Quando volta a sua casa, o peregrino já sabe que, afinal, não chegou ao fim da sua caminhada. Percebe que o lugar sagrado para onde se dirigiu e aonde chegou afinal não é lugar de chegada, mas sim lugar de nova partida. Andou numa direcção e não em círculo. O peregrino não viu só com os olhos, viu também com o coração e por isso pôde, ao menos um pouco, ver por dentro. Avançou. Percorreu parte do seu Caminho - algo mudou nele. Uma peregrinação é um caminho iniciático de conversão.

 

 

(CARDOSO, António Homem; ALMEIDA, Lourenço de - O Caminho Português de Santiago. Estoril: Lucerna, 2005; Imagem disponível em http://www.santuario-fatima.pt/portal/img.php?id=952&s=pe)

publicado por ssacramento às 09:14
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