Quinta-feira, 21 de Junho de 2007

O Deus dos pobres

A Bíblia pode ser lida a partir de diversas perspectivas. Uma das formas de ler a Bíblia é partir da teologia da pobreza. A pobreza é uma dura realidade em todas as épocas da História e em todas as culturas.

O povo do Antigo Testamento foi pobre devido à sua situação geográfica e económica. A região da Palestina era semi-desértica e situava-se entre as terras férteis dos rios Tigre e Eufrates e o Egipto. Esta pobreza da terra determinava a pobreza do povo que a habitava.

A situação política também não o favoreceu, já que a sua História é recheada de acontecimentos dolorosos, com os cananeus e com os povos do Norte e do Sul. A Palestina foi lugar de contínua passagem de soldados e guerreiros, que ocupavam o território e provocavam a devastação.

A nível cultural, os hebreus, um povo mais recente que os povos vizinhos (egípcios, babilónios e assírios), copiaram muitos aspectos destas culturas e religiões.

Nas suas leis sociais, a Bíblia manifesta uma preocupação constante pelos pobres (Ex 21,2-3; Lv 25,39; Dt 15,4). Normalmente, aparecem divididos em 4 classes principais a serem protegidas, embora frequentemente discriminadas pelos juízes dos tribunais: pobres, órfãos, viúvas, estrangeiros.

Israel nasceu como um povo pobre, ligado à condição de estrangeiro e de escravo no Egipto, daí esta experiência ter marcado a sua vida histórico-religiosa, mas também a sua visão de Deus. Este povo nasceu pobre, viveu pobre e era um povo pobre, que tem como Deus o Deus dos pobres. Toda a epopeia do Êxodo torna-se um acontecimento exemplar, revelando um Deus que não permite que nenhum homem, mulher ou povo viva na miséria, em condições desumanas, na pobreza ou em qualquer tipo de opressão.

Esta é uma ideia fundamental para entender a Bíblia como livro de revelação de Deus aos que têm coração de pobres, e esta revolução em favor dos povos é permanentemente dinamizada mediante "Moisés", que o Senhor envia em cada época da História.

Quando Samuel chama um filho de Jessé, de Belém, para rei de Israel, todos os filhos mais crescidos são colocados de lado e é escolhido o mais novo, mais débil e pequeno: David (1Sm 16,1-13).

Os pequeninos também aparecem como os amigos de Deus e os que acolhem a Sua Palavra (Lc 10,21), pois eles têm um coração orante.

No Antigo Testamento, a pobreza tem duas vertentes: o pobre e a sua pobreza como estado de degradação humana; a relação pobre-rico, em que este último surge como causador da pobreza, envolvendo um juízo de valor, uma atitude ética relativamente às atitudes injustas dos ricos. O rico torna-se um "ímpio", alguém que põe toda a sua confiança nos bens materiais e no poder; o pobre, como amigo de Deus, põe toda a sua confiança no Senhor, sendo objecto da justiça, do amor de Deus. O pobre torna-se mesmo um sacramento de todo o Israel, pois representa este povo de pobres diante do Deus dos pobres.

Jesus veio para evangelizar e libertar os pobres (Lc 4,18-19), por isso veio humilde e pobre anunciar a Boa-Nova aos que têm um coração como o dele. Para ler a Bíblia como Palavra de Deus, é condição essencial ter um coração pobre, simples e acolhedor, pois a descoberta do sentido da Bíblia é feita pelo Espírito de Jesus, que a revela aos pobres e pequeninos (Lc 10,21). O rico, o que alimenta a sua vida apenas com os bens materiais, não sente necessidade de outro alimento, logo não acolhe a Palavra nem os valores do Evangelho.

(Artigo de Herculano Alves, in Revista Bíblica, Maio-Junho/2007)
publicado por ssacramento às 22:22
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