Quinta-feira, 19 de Julho de 2007

Como caíram as muralhas de Jericó

A conquista da cidade de Jericó, feita pelo povo de Israel conduzido por Josué, aparece narrada no cap. 6 do livro de Josué e situa-se cerca de 1200 a.C., quando os israelitas chegaram à Palestina, a Terra Prometida.
A primeira cidade inimiga que encontraram foi Jericó, um centro importante e rico (Js 6,24), rodeado por muralhas altas e poderosas (6,5). No seu interior habitavam os cananeus, com um rei, serviços secretos de inteligência (Js 2,2) e um valoroso exército. Os israelitas, pelo contrário, eram apenas um bando desorganizado de tribos e clãs que vinham a fugir da escravidão do Egipto. Como é que poderiam conquistar todo o país, se a primeira cidade já parecia inconquistável?
Nesse momento Deus falou a Josué e explicou-lhe a estratégia que deviam utilizar para vencer e destruir Jericó, exterminando todos os habitantes da cidade. Era um ritual estranho: durante 7 dias, marchariam em círculo à volta da cidade, com a Arca da Aliança; os sacerdotes iriam tocando as trombetas, enquanto o resto do povo acompanharia com um solene silêncio; dariam uma volta cada dia e voltariam para o acampamento (Js 6,15-20).
Esta batalha de Jericó aparece como um acontecimento militar chave para o povo de Israel, uma vez que lhe abriu as portas da conquista da Palestina. Porém, na realidade, o que terá acontecido? Durante séculos as opiniões dos biblistas dividiram-se, desde um rotundo impossível, à fega cega num milagre de Deus, à atribuição a um fenómeno natural como um terramoto, ou a considerarem que a expressão "muro da cidade" era uma metáfora para designar a "guarda da cidade".
Um achado arqueológico pôs fim a este debate. A cidade de Jericó foi descoberta em 1868, a 28 Km ao nordeste de Jerusalém, perto do Mar Morto. As primeiras escavações realizaram-se entre 1908 e 1910, pelos alemães E. Sellin y C. Watzinger. Entre 1930 e 1936 houve uma 2ª campanha arqueológica, dirigida pelo inglês John Garstang. Finalmente, entre 1952 e 1959 houve a 3ª e última campanha, dirigida pela arqueóloga Kathleen Kenyon.
A primeira surpresa surgiu quando se verificou que Jericó seria a cidade mais antiga do mundo, pois encontraram-se restos de uma muralha de defesa (com 2 metros de largura e uma torre de 9 metros), datada de 8.000 a.C.
Então, Jericó erguia-se num fértil oásis, de abundantes palmeiras e tâmaras, com copiosas nascentes de água. Os habitantes da cidade enterravam os seus mortos debaixo do piso das suas próprias casas. Esta cidade teria sido destruída pela guerra e abandonada cerca de 7.200 a.C.
A 2ª grande descoberta foi que não houve apenas uma Jericó, mas muitas, pois ao longo da sua história a cidade foi destruída e reconstruída numerosas vezes, devido a catástrofes, guerras, invasões, conflitos, dando origem a um total de 17 Jericó, o que mostra a sua importância estratégica. A última Jericó que os arqueólogos encontraram foi a do ano 1550 a.C.
Ora, se Jericó não voltou a ser edificada após esta última devastação, supostamente quando Josué chegou com os israelitas à Terra Prometida (cerca de 1200 a.C.), havia já 350 anos que a cidade tinha deixado de existir! Significa que a conquista de Jericó carece de fundamento histórico?
Há outra explicação possível: embora a cidade já não existisse em 1200 a.C., algumas franjas de população autóctone teriam ocupado novamente as ruínas daquele lugar, convertido então numa cidade fantasma e teria sido com eles que os israelitas se confrontaram e impuseram.
Séculos mais tarde, quando os israelitas começaram a pôr por escrito os relatos da conquista da Palestina, contaram este episódio da única forma que o sabiam fazer: não como historiadores profissionais, mas como homens de fé, como se fosse uma liturgia, surgindo o relato acima mencionado, talvez inspirados na procissão que todos os anos se realizava, a partir do santuário vizinho de Guilgal, à volta das ruínas para comemorar a conquista. Vejamos:
  • não são os guerreiros a terem o papel principal no combate, mas os sacerdotes;
  • são usadas trombetas, principal instrumento musical de louvor a Deus e de oração em todas as festas religiosas (Nm 10,10);
  • nenhum general dirige a batalha, mas a Arca da Aliança;
  • os soldados israelitas assistem a uma procissão, e não a um combate, guardando o respeitoso silêncio próprio da oração;
  • o grito de guerra que lançam no último dia era o clamor que os israelitas costumavam lançar nas suas festas religiosas (2Sm 6,15; Lv 25,9; Nm 29,1);
  • o relato está contado simbolicamente pelo uso do número 7 que significa perfeição: 7 dias dura a procissão, 7 sacerdotes levam 7 trombetas, no 7º dia dão 7 voltas).
Não nos esqueçamos que eles escreviam para que os seus relatos fossem lidos no templo, nas suas reuniões e grupos de oração.
Tal como a antiga Jericó, também hoje existe um mundo do mal fechado atrás das suas firmes fortificações ou muralhas. As injustiças sociais, a mentira, a corrupção, o desprezo pelos mais débeis, a fome, impedem que as pessoas entrem na salvação, isto é, num novo tipo de sociedade em que a dignidade de todos seja respeitada e onde todos tenham direito à educação, ao trabalho, a viver em paz, de modo a constituir uma nova Terra Prometida.
Hoje fazem falta trombetas capazes de vencer esta fortaleza injusta e perversa: as trombetas da solidariedade, do serviço, do testemunho de vida. Mas não bastam as trombetas; Josué ordenou um grito de guerra em uníssono. A condição essencial para que a Igreja vença é a sua unidade, a sua união.
A batalha de Jericó é eterna, prolonga-se através dos séculos. Com o anúncio constante do Evangelho, o testemunho de vida e, sobretudo, a unidade da Igreja, a soberba Jericó pode ser destruída, entrincheirada atrás das suas torres de egoísmo, de pecados sociais e de corrupção.
Quando a Igreja (que também somos nós) gritar com o seu exemplo de vida e a sua unidade, tudo o que seja inimigo do homem ficará convertido em escombros.

(Artigo de Ariel Álvarez Valdés, traduzido por Lopes Morgado, in Revista Bíblica, Julho/Agosto 2007)
publicado por ssacramento às 21:03
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