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Blogue da Paróquia do Santíssimo Sacramento

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A Vieira ou concha

24.07.08 | ssacramento

Desde a Antiguidade que a concha é associada ao renascer da vida, ao mistério e à beleza (basta recordar Afrodite, a deusa do amor, nascida de uma concha). O facto de as pérolas se formarem em certas "conchas" (as ostras), sempre fascinou o Homem.

 

A vieira (plecten jacobeus) é uma concha bivalve que alberga um molusco comestível e é associada à peregrinação a Santiago de Compostela, já que, desde o achamento do túmulo do Apóstolo, no século XIX, foi e é uso dos peregrinos trazerem desta cidade uma vieira como recordação da peregrinação.

 

Qual é a origem desta tradição? São várias as versões, embora haja alguns elementos que são comuns.

 

Diz uma lenda que, quando a barca que trazia o corpo do Apóstolo se acercou perigosamente da costa galega, um cavaleiro que na praia disso se apercebeu, não hesitou e avançou com o seu cavalo pelo mar adentro, para prestar auxílio. Não conseguindo vencer o mar, o cavaleiro encomendou a alma a São Tiago e logo as ondas se teriam acalmado, seguindo a barca o seu caminho em segurança e o cavaleiro e a montada voltaram à praia sãos e salvos. Porém, o cavalo viria revestido de vieiras...

 

Outra lenda refere que o cavaleiro era um noivo galego que galopava pela praia a caminho da capelinha onde a noiva o esperava, para se casarem. Ia atrasado e, numa pequena baía, para avançar mais rápido, tentou cortar caminho pelas águas revoltas que o engoliram e o terão levado a invocar o santo: "Meu Santiago valei-me, que deixo viúva sem ter casado!". As águas terão amansado e o cavaleiro pôde continuar o seu caminho, mas para espanto da noiva e de todos, o cavalo vinha coberto de vieiras...

 

Ainda outra lenda afirmava que, quando Teodoro e Atanásio amarraram a barca com o corpo de Tiago na praia de Iria Flavia (no Pádron), repararam que ela vinha com o casco coberto de vieiras.

 

Provavelmente, a origem deste uso das vieiras deve-se à profusão de conchas disponíveis na região e, por outro lado, a maioria dos peregrinos não as conheceria; alguns ter-se-ão lembrado de levar uma para casa, atestando a sua passagem no local. Era ainda um artefacto usado para beber água de um ribeiro ou fonte, para refrescar a cabeça num dia de calor.

 

A vieira era envergada cosendo-a na esclavina (uma espécie de fato-capote feito de tecido grosso de lã, que protegia do frio e calor, atado à cintura com um cinto de corda) ou na aba da frente do chapelão ou pendurada ao pescoço (actualmente é esta a situação mais comum).

 

 

(CARDOSO, António Homem; ALMEIDA, Lourenço de - O Caminho Português de Santiago. Estoril: Lucerna, 2005; Imagem disponível em http://www.caminhoportugues.org/index2.htm)