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Blogue da Paróquia do Santíssimo Sacramento

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Um ano a caminhar com São Paulo: "Nós aos gentios e eles aos circuncisos"

18.08.08 | ssacramento

Um dos maiores obstáculos do cristianismo nos seus primórdios foi o da obrigatoriedade da circuncisão para cristãos vindos do paganismo. A circuncisão estava ligada à fecundidade, sendo também praticada por outros povos, como rito de entrada na puberdade, tendo-se tornado o sinal de aliança que o povo acolhe pela fé e de que sempre se deve lembrar, para ter a vida que lhe vem de Deus (ver Gn 7,1-14, no relato da aliança de Deus com Abraão). Assim, a sua abolição na Igreja foi uma medida de grande coragem.

 

Sobre este assunto, Paulo fala na reunião apostólica de Jerusalém, relatada em Gl 2,1-10 (também aparece em Act 15,1-33) e que terá ocorrido após a sua vocação, cerca do ano 48 (os Actos dos Apóstolos situam-na depois da viagem missionária de Paulo e Barnabé). Após esta viagem missionária, o número de pagãos incircuncisos aceites na Igreja aumentou. Depois do regresso a Antioquia, os cristãos de tendência farisaica, vindos de Jerusalém, deslocaram-se para lá, para pôr fim à prática, agora seguida também nas comunidades fundadas por Paulo e Barnabé (Act 15,1). E foi devido à controvérsia que isso gerou, que os cristãos da Antioquia decidiram levar o problema a Jerusalém. Paulo chama a esta decisão uma revelação, talvez por ter sido tomada numa assembleia reunida em oração, semelhante à que dera origem à 1ª viagem missionária (Act 13).

 

Este encontro decorreu em 2 tempos:

  • primeiro, estiveram presentes na assembleia antioquenos e também cristãos que defendiam a circuncisão. Paulo chama-lhes falsos irmãos, talvez porque, na prática, não aceitavam na família cristã quem rejeitasse a sua exigência.
  • depois, houve uma segunda reunião, apenas com os delegados de Antioquia, que eram considerados as colunas, assim chamados devido à sua condição apostólica, semelhante à de Paulo e Barnabé, e por estarem à frente da comunidade mãe de Jerusalém: Tiago, Pedro e João. Com a autoridade deles chegou-se ao seguinte acordo: Paulo e Barnabé continuariam a anunciar o Evangelho aos gentios, enquantos os outros três aos circuncisos.

Não é uma divisão geográfica ou etnográfica, trata-se apenas da exigência da circuncisão ou não. Para este acordo terão contribuído variados factores: a prática seguida nas sinagogas da diáspora que já acolhiam pagãos incircuncisos (os tementes a Deus); a argumentação de Paulo relativa à evangelização dos gentios; a necessidade de salvaguardar a unidade entre todas as Igrejas.

 

Um exemplo para os cristãos de hoje, ainda tão divididos e, muitas vezes, por questões tão mesquinhas.

 

 

(OLIVEIRA, Anacleto - Um ano a caminhar com S. Paulo. Palheira: Gráfica de Coimbra,2008)