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Blogue da Paróquia do Santíssimo Sacramento

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Um ano a caminhar com São Paulo: "Pedro retirava-se e separava-se, com medo..."

25.08.08 | ssacramento

Com o acordo sobre a circuncisão, alcançado na reunião apostólica de Jerusalém, ficou resolvida a questão da unidade entre as diferentes comunidades cristãs. Mas outro problema surgiu devido ao mesmo acordo: a unidade no interior das comunidades, entre os cristãos de origem judaica e os de origem pagã, não circuncidados. Deviam ou não respeitar as normas judaicas, sobretudo as de carácter ritual? Novamente surgiu a questão em Antioquia, gerando um conflito que dividiu a comunidade e as figuras de topo: Paulo e Pedro.

 

O incidente só é contado por Paulo em Gl 2,11-14, logo a seguir à exposição da reunião apostólica de Jerusalém, o que mostra a ligação entre os dois acontecimentos.

 

O incidente decorreu em 3 fases:

  • até à chegada das pessoas da parte de Tiago. Até então, Pedro (ou Cefas, em aramaico) tomava parte nas refeições comunitárias, com cristãos oriundos do Judaísmo e do Paganismo, talvez remontando este hábito à fundação da comunidade e confirmado, indirectamente, pela decisão da reunião apostólica de Jerusalém. Essas refeições incluíam a celebração da Eucaristia. A comunidade, fundada cerca de 15 anos antes, numa cidade de grandes dimensões (a 3ª maior do mundo de então), devia ter um número alto de membros e celebrar-se-ia em várias casas. De vez em quando, toda a comunidade se juntava para celebrações da Palavra, catequese, etc. Terá sido numa dessas assembleias gerais que se deu a intervenção de Paulo, referida mais à frente.
  • a mudança, após a chegada de pessoas da parte de Tiago (o irmão do Senhor, Gl 1,19), que estava à frente da comunidade de Jerusalém, desde que Pedro a deixara. Também ele concordara com a decisão apostólica de libertar da circuncisão os cristãos convertidos ao paganismo. A razão que o levou, através de delegados, a intervir em Antioquia era que para ele, os judeo-cristãos continuavam judeus e, como tal, deviam cumprir as normas judaicas sobre a alimentação: entre elas, a proibição de tomar refeições com não-judeus, caso contrário, contrairiam a impureza ritual, que os impedia de tomar parte noutros actos de culto. Tratava-se de salvaguardar a identidade do Cristianismo, na sua ligação histórica ao Judaísmo, respeitando as linhas que o separavam do paganismo. Assim faziam os cristãos de Jerusalém e Pedro também o devia fazer, sobretudo devido ao seu lugar na Igreja e ao facto de , segundo o acordo apostólico de Jerusalém, o seu campo de missão serem os cricuncisos. A isso juntava-se o medo dos partidários da circuncisão, talvez os judeus de Jerusalém que, com as suas autoridades, perseguiam os cristãos (1Ts 2,14) e vão mesmo matar Tiago, no ano 62. Daí Pedro ter cedido, bem como os restantes judeo-cristãos, incluindo Barnabé, companheiro missionário de Paulo. Assim, a comunidade ficou dividida, precisamente naquilo que mais a devia unir: a Eucaristia. Daí Paulo ter reagido tão duramente.
  • a reacção de Paulo está expressa nas palavras que, em assembleia plenária, dirigiu a Pedro: ao retirar-se e separar-se das celebrações eucarísticas com cristãos não judeus, Pedro estava, na prática, a obrigá-los a submeterem-se às normas das quais o Evangelho os libertara.

Paulo não deve ter convencido a comunidade, senão di-lo-ia. Provavelmente, a cisão tornou-se insustentável, sobretudo por incidir sobre a Eucaristia, o sacramento por excelência da unidade. Daí as decisões adoptadas pelos cristãos não judeus (Act 15,29) na reunião apostólica de Jerusalém: abster-se dos ídolos (de refeições culturais pagãs e de carnes de animais nelas abatidos), do consumo de sangue, dos sufocados (carnes não sangradas) e da fornicação (casamentos entre familiares). Eram os preceitos de Noé (com base em Gn 9,4), considerados válidos para todos e impostas aos estrangeiros residentes na Palestina, para aí poderem conviver com os judeus.

 

Quanto a Paulo, separado de Pedro e Barnabé, pelo menos temporariamente (1Cor 9,5), partiu com Silas para uma maior expansão do Evangelho entre os gentios. Há males que vêm por bem...

 

 

(OLIVEIRA, Anacleto - Um ano a caminhar com S. Paulo. Palheira: Gráfica de Coimbra,2008)

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