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Blogue da Paróquia do Santíssimo Sacramento

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Um ano a caminhar com São Paulo: "Com ele estás relacionado tanto humanamente como no Senhor"

22.09.08 | ssacramento

Um dos factores que mais contribuiu para a rápida implantação do cristianismo foi a estruturação doméstica das suas comunidades. Várias vezes se diz que, na sequência do anúncio do Evangelho, uma casa inteira se convertia e era baptizada e era aí que, depois, se rezava (Act 12,12), era celebrada a Eucaristia (1Cor 11,20), se hospedavam os missionários (Act 16,15). Era sobretudo nas famílias, com os seus servos e escravos, que a economia tinha a sua fonte principal e as pessoas se associavam cultural e religiosamente.

 

Nas comunidades cristãs assim formadas, o chefe de família assumia normalmente o lugar de dirigente e os laços familiares eram aproveitados como esteio para a igualdade e igual dignidade cristã dos seus membros.

 

Um dos melhores exemplos do que acima se refere é documentado pela carta dirigida por Paulo a Filémon e à Igreja que se reunia em sua casa (Flm 8,21). Paulo estaria então preso, provavelmente em Éfeso onde recebeu Onésimo, um escravo que fugira da casa de Filémon, para não ser castigado por prejuízos que lhe havia causado. Do encontro com Paulo resultou a conversão de Onésimo a Cristo, que é reenviado por Paulo a Filémon, com uma carta de recomendação.

 

Nesta sua carta, Paulo refere 3 relacionamentos, que se fundam na comunhão, e que têm em comum a relação com Cristo:

  • entre Paulo e Filémon - Paulo é um irmão já ancião e preso por causa de Cristo, o mesmo Cristo que Filémon conheceu através de Paulo. Poderá ele negar a um irmão, e para mais nestas condições, o que este apenas lhe pede?
  • entre Paulo e Onésimo - Paulo gerou Onésimo (cujo nome significa útil) para a vida nova em Cristo. Se, como cristão, Onésimo é útil ao Apóstolo, sê-lo-á igualmente a Filémon, agora também ao serviço da comunidade cristã a que preside. Não é esta mais uma razão para o acolher?
  • entre Filémon e Onésimo - O escravo Onésimo passou a ser um irmão amado por Jesus Cristo e pelo Apóstolo, logo poderá Filémon negar-lhe a caridade da qual e para a qual ele vive? Poderá Filémon restringir a comunhão que o une a Onésimo às celebrações litúrgicas e, fora delas, tratá-lo como um escravo, um objecto que se possui e do qual se pode usar e abusar? Mas que fazer com os prejuízos causados? Paulo assegura repetidamente que os pagará. É óbvio que seria ridículo para Filémon aceitar um tal pagamento.

Pelo que se depreende de Cl 4,9, Onésimo foi dispensado para o serviço do Apóstolo, uma prova de que em Cristo somos todos realmente iguais na dignidade cristã, nas comunidades cristãs de então e nas de hoje. Pela fé em Cristo, tornamo-nos livremente cristãos e escravos uns dos outros, na comunhão de amor que nos une.

 

 

(OLIVEIRA, Anacleto - Um ano a caminhar com S. Paulo. Palheira: Gráfica de Coimbra,2008)