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Blogue da Paróquia do Santíssimo Sacramento

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A importância de ter avós em S. Mateus (I)

23.09.08 | ssacramento

Conhecer as avós nem sempre é importante para compreender uma pessoa, as suas características ou obra. É verdade que os nossos antepassados exercem sobre nós uma certa influência, mas como é que um punhado de mulheres, distanciadas entre si por muitas gerações e séculos, ajudarão a entender o sentido de uma vida?

 

S. Mateus inicia de uma forma muito estranha o seu evangelho: com uma longa lista de nomes (genealogia), de todos os antepassados de Jesus (Mt 1,1-17). Apresentar ao leitor, logo à entrada, uma tal lista de personagens, extensa e aborrecida, pode parecer-nos um recurso pouco feliz de Mateus, mas ao analisá-la verificamos que, no meio desta sequência de 42 nomes masculinos, se encontram 4 longínquas mulheres, as únicas 4 antepassadas de Jesus que são nomeadas.

 

Na antiguidade, as genealogias eram muito importantes, pois nelas se conservava registada toda a ascendência familiar. Para os judeus elas eram ainda mais importantes, pois era indispensável demonstrar a pureza da raça. Ter mistura de sangue estrangeiro, ter um não-judeu nos seus antepassados, significava perder os direitos de membro do povo de Deus. Assim, se alguém quisesse ser sacerdote tinha que provar que a sua linha genealógica descendia directamente do sacerdote Aarão, irmão de Moisés. Se alguém quisesse ser rei, tinha que provar que pertencia à família do rei David. Quando alguém queria casar-se, tinha de provar a pureza racial da futura esposa pelo menos ao longo das últimas 5 gerações. O próprio Herodes, o Grande, que governou o país no tempo de Jesus, foi sempre desprezado pelo povo por ter herdado, dos seus antepassados, sangue do povo edomita. Este facto chegou a aborrecê-lo tanto que, a dada altura, ordenou que todos os registos oficiais constantes dos arquivos fossem destruídos, para que ninguém pudesse demonstrar que possuía uma linha de antepassados mais pura que a sua.

 

É por isso que S. Mateus, que escreve o seu evangelho para os judeus, quer apresentar Jesus como o Messias esperado e, como tal, pensa que o melhor é começar com uma genealogia.

 

 

(VALDÉS, Ariel Álvarez - Que sabemos da Bíblia? III. Apelação: Paulus, 1998; Imagem disponível em http://bp2.blogger.com/_Zm7YFr0rRfU/R9lOtIT3WxI/AAAAAAAAADs/KcXAumjsmQ4/s400/caravaggio22.jpg)