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Blogue da Paróquia do Santíssimo Sacramento

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Férias...

Verão é tempo de férias e os meses de Julho e Agosto introduzem novas viagens, umas mais próximas, outras mais distantes. Por um lado, é a linha azul do mar que tanto nos seduz e que, com a sua imensidão, nos lembra o nosso verdadeiro horizonte; por outro lado, a subida aos altos montes traz-nos uma visão clara do infinito. 

 

Entendemos bem aquele verso de Rilke que diz: "Espero pelo Verão como quem espera por uma outra vida". Na verdade, não é por uma vida estranha e fantasiosa que esperamos, mas por uma vida que realmente nos pertença. Por isso é tão decisivo que as férias, tempo aberto às múltiplas errâncias, não se torne um período vago; tempo plástico e criativo e não se enrede nas derivas consumistas; tempo propício à humanização e não se perca na fuga a si mesmo e no ruído do mundo.

 

Em toda a tradição bíblica o repouso é uma oportunidade privilegiada para mergulhar mais fundo, mais dentro, mais alto. É aceitar o risco de sentir a vida integralmente e de maravilhar-se com ela: na escassez e na plenitude, na imprevisibilidade dolorosa e na sabedoria confiante. (Adaptado de um artigo de José Tolentino Mendonça, Ecclesia. Imagem retirada da Internet)

 

Todos precisamos deste repouso. De nos encontrarmos connosco próprios, com os outros, com Deus. De recuperar energias para um novo ano. Por isso,  a folha Pão e Vida não será publicada durante o mês de Agosto. Ela regressará no próximo mês de Setembro. Quanto ao blogue, para o próximo mês de Agosto, escolhemos meditar nas palavras de um antigo arcebispo de Saigão, cujo processo de beatificação se encontra aberto no Vaticano.

 

Francisco Xavier Nguyen Van Thuan reviveu na primeira pessoa a experiência de Paulo, "prisioneiro do Senhor", pois, após a sua nomeação para arcebispo coadjutor de Saigão e aquando da chegada dos comunistas, foi mantido prisioneiro durante 13 anos, 9 deles em isolamento. Durante esse período de tempo, D. Francisco quis escrever ao seu povo, para reconfortá-lo, confirmá-lo na fé e fazer reflorescer nele a esperança. Não escreveu cartas, mas breves e simples frases, servindo-se de um restinho de lápis e de folhas de um calendário. Todas as manhãs entregava essas folhinhas a uma criança da aldeia, que as levava para casa e as copiava para as folhas de um caderno escolar. Essas páginas chegaram depois clandestinamente ao Ocidente, através de vários vietnamitas que faziam parte do exército das boat people (gente dos barcos).

 

Essas palavras são também apelo para todos nós, para seguirmos Jesus e revivermos a vida divina que Ele trouxe ao mundo.

 

(A obra utilizada, da qual fizemos transcrição das informações constantes neste artigo, foi a seguinte: THUAN, Francisco Xavier Nguyen Van - O Caminho da Esperança. Prior Velho: Paulinas, 2007)

Oração feita apostolado

Para além das Missas e, nalgumas pessoas, do terço, pouco se reza. Não se dá tempo a Deus, ao diálogo orante, à intimidade com o Senhor, à comunhão com a Trindade. Não se cresce na vida interior, na assimilação orante da Palavra, na arte do discernimento, na urgência de fazer um sério e cuidadoso exame de consciência.

 

Rezar é ser apóstolo, como Santa Teresinha que, não saindo do Carmelo, é padroeira das Missões. Mas nós temos tempo para tudo menos para rezar mais a sério e de um modo mais comprometido. Oração que converta a vida, que nos interpele, que nos mova a uma crescente caminhada de santidade. Rezar por nós e pelos outros. Rezar pelas grandes intenções da vida da Igreja e da Humanidade. Oração feita apostolado, oração fecunda, porque centrada nos outros e no seu bem, aberta às grandes preocupações e problemas do mundo. Oração que junta a família, que a une à volta do Senhor, que faz com que a "igreja doméstica" tenha vida e vida em abundância.

 

Sem oração, não há vida divina em nós e nos outros, não há força para resistir a tentações, não há intimidade com o Senhor que nos quer encher da sua graça e da sua vida.

 

 

(PEDROSO, Dário - Nuvem de Poeira.Braga: Editorial A.O, 2006)

(Casa-Acolhimento) Santa Marta

Fazemos hoje memória de Santa Marta. Marta era irmã de Maria e Lázaro e vivia na Betânia, uma pequena povoação que distava 4 quilómetros de Jerusalém. Quando Jesus visitava Jerusalém costumava hospedar-se na casa destes 3 amigos. No seu Evangelho, Lucas refere que Marta questionou Jesus pelo facto de a irmã Maria não a ajudar nas lides. O Senhor apreciava o serviço de Marta, mas ao mesmo tempo sabia que este era imperfeito e mostrou a Marta quais as prioridades que deviam nortear a sua acção, explicando-lhe que sua irmã Maria optara pela melhor parte: escutar Jesus.

 

Toda a vida activa deve surgir da contemplação. A vida contemplativa concentra-se em Deus e une-se a Ele pela adoração e pelo amor. Mas a oração também leva à acção. O serviço de Marta é necessário, mas deve estar subordinado ao tempo do Senhor.

 

O Verão é período de férias. É sem dúvida um bom momento para parar e sentar-se a escutar o Senhor. Isto significa aceitar que somos criaturas limitadas, que não podemos fazer tudo. Aliás, que não podemos fazer nada bem sem o auxílio do Senhor. (Adaptado de http://www.santopedia.com/santos/santa-marta-de-betania)

 

 


A casa-acolhimento Santa Marta é uma obra sócio-caritativa da nossa Paróquia, que se encontra em construção, e quer estar ao serviço dos doentes, idosos, sós e carenciados. Ela tem como advogada Santa Marta, por ser um exemplo de actividade e labor doméstico e, como tal, deverá ser um modelo para todos quantos trabalham (e trabalharão) nesta diaconia paroquial. Até ao momento as ofertas para a obra totalizam 801.858,00 €. O custo total está orçado em 1.252.900,00 € + IVA.

As fotografias da obra estão disponíveis em http://casasantamarta.blogs.sapo.pt.

 

O contributo de todos continua a ser necessário! Caso esteja interessado em contribuir para a construção da Casa-Acolhimento Santa Marta, contacte:

Igreja Paroquial do Santíssimo Sacramento
(Pe. José Pereira Soares Jorge)
Rua de Guerra Junqueiro, 600
4150-387 Porto
Telef: 22 606 60 08            Fax: 22 600 29 81            e-mail: santissimo@iol.pt

Atenção, não realizamos peditórios na rua ou pela Internet.

 

Um ano a caminhar com São Paulo: "A diaconia da reconciliação"

Em que consiste o verdadeiro apostolado? Como se manifesta e reconhece? Esta questão já havia sido posta no Antigo Testamento a respeito do profetismo e também Paulo se viu confrontado com ela. Missionários cristãos, chegados a Corinto, levaram mesmo a comunidade a romper com Paulo, o seu fundador, acusando-o da falta dos sinais distintivos do Apóstolo, como os estados de transe ou êxtase (2Cor 3,7-21; 12,1). A isto Paulo responde, por exemplo, em 2Cor 5,14-21. É que os sinais do Apóstolo dependem de quem o constitui nessa missão e do modo como o fez. Paulo serve-se do termo diaconia, que, na prática, significava o mesmo que apostolado. A palavra diaconia, de origem grega, indica uma total dependência de quem é enviado (o diácono), em relação a quem o envia (Cristo) e áqueles a quem é enviado (as comunidades cristãs). É tal a sujeição do Apóstolo a Cristo que este se torna presente nele, sempre que exerce a sua diaconia.

 

Na passagem da 2ª Carta aos Coríntios que nos é proposta para esta semana (5,12-21), Paulo destaca a morte salvífica de Cristo, pois:

  1. foi esta que levou Paulo a mudar de vida, por ter sido o maior acontecimento de amor, tão grandioso que  nele esteve envolvida toda a humanidade (ao morrer por todos, todos morreram em Cristo). Foi deste amor que Paulo ficou totalmente possuído, na aparição do Ressuscitado. Daí advêm os efeitos na sua vida: a mudança radical, como uma nova criação que Deus então operou nele.
  2. foi ela que levou à diaconia de Paulo. O Apóstolo chama-lhe diaconia da reconciliação, devido à sua finalidade e origem: ela nasceu da experiência pessoal do amor de Deus manifestado na morte redentora de Cristo, pela qual Deus reconciliou o mundo consigo, amor esse que se exprime pelo perdão dos pecados e é gratuito, pois foi d'Ele que partiu a iniciativa da reconciliação, tendo um alcance universal. Deus, ao fazer Paulo participante neste acontecimento de reconciliação, torna-o também seu mediador. No acto em que Deus o reconciliou consigo, deu-lhe a diaconia da reconciliação. 
  3. é nela que se fundamenta a actividade do diácono. No seu exercício, Paulo apresenta-se como embaixador de Cristo e porta-voz de Deus. Embaixador, diácono ou apóstolo é aquele que actua com os poderes de quem o envia. Paulo rejeita experiências extáticas para se recomendar como Apóstolo. Se as guarda para a sua relação pessoal com Deus, é porque em nada contribuem para a construção da comunidade, podendo mesmo desviá-la da única fonte de vida: o amor de Cristo na cruz.

Ainda hoje, quem se reconcilia com Deus, tem de reconciliar-se com os outros, sobretudo com aquele que é diácono da sua reconciliação.

 

 

 

(OLIVEIRA, Anacleto - Um ano a caminhar com S. Paulo. Palheira: Gráfica de Coimbra,2008)

Telefones de emergência

Com este título sugestivo, Telefones de Emergência, a revista Stella de Julho/Agosto 2008, deixa-nos alguns contactos a não perder...

"Quando estiver triste, ligue para São João, capítulo 14

Quando alguém falar mal de si, ligue para o Salmo 27

Quando se sentir criativo, ligue para São João, capítulo 15

Quando estiver nervoso, ligue para o Salmo 51

Quando estiver preocupado, ligue para São Mateus, capítulo 6; 19,34

Quando estiver em perigo, ligue para o Salmo 91

Quando se sentir distante de Deus, ligue para o Salmo 63

Quando precisar de reactivar mais a fé, ligue para Hebreus 11

Quando se sentir na solidão e com medo, ligue para o Salmo 23

Quando for severo e crítico, ligue para 1ª Coríntios 13

Quando quiser saber qual é o segredo da felicidade de São Paulo, ligue para Colossenses 3; 12-17

Quando quiser saber o que é o Cristianismo, ligue para 1ª Coríntios 5; 15-19

Quando se sentir triste, ligue para Romanos 8; 31-39

Quando quiser encontrar a paz e a tranquilidade, ligue para São Mateus, capítulo 11; 25-30

Quando o mundo lhe parecer maior do que Deus, ligue para o Salmo 90."

 

Dia dos Avós

Hoje é dia de São Joaquim e de Santa Ana, pais de Nossa Senhora, e também se comemora o Dia Nacional dos Avós. A Associação Famílias, na sua mensagem para este dia, leva-nos a reflectir sobre a importância dos avós.

 

"(...) Num mundo apressado, com amnésia generalizada sobre o seu passado, angustiada quanto ao futuro e à deriva na actualidade, os Avós são, ou devem ser, como que bússolas que apontam rumos, ou âncoras de estabilidade, na discrição que se impõe na sua actuação junto dos filhos e dos netos.

Os Avós, como elos de uma longa cadeia de gerações que é cada Família, são figuras importantíssimas e a quem a sociedade deve respeitar e amar.

Não sendo nem devendo ser “pais duas vezes”, os Avós são não raras vezes referências estruturantes no seio da Família, sobretudo quando a saúde, a disponibilidade e a proximidade proporcionam o contacto com os netos. Esta relação, quando efectiva e carregada de afecto, pode favorecer um desenvolvimento equilibrado de cada criança. A falta dos Avós no processo do crescimento das novas gerações é, sem dúvida, um factor de empobrecimento cultural, social e espiritual. (...)

Por isso, faz sentido celebrarmos os Avós e, com o crescente aumento de esperança de vida, talvez começarmos a pensar nos Bisavós que são cada vez mais e a quem nem sempre se dá a devida atenção já que, não raras vezes, vivem já com severas limitações, mas carecendo sempre de ser amados. Neste Dia Nacional dos Avós, não deixaremos de recordar os que já partiram. Eles também não devem ser esquecidos!"

São Tiago

 

Deus e Senhor, que chamas Tiago, irmão de João, a servir a causa do Teu Reino, Te louvamos nesta manhã.

 

Acompanhou, de perto, os momentos mais reveladores da missão do teu Jesus. Teve de crescer em maturidade para não pretender as honras que sua mãe Salomé implorava, e para não adormecer perante a agonia.

 

Pela força do Teu Espírito foi o primeiro a dar a vida, para demonstrar como seguia o Mestre no beber do cálice.

 

Este apóstolo São Tiago, que no segundo milénio atraiu peregrinos para Compostela, seja, Deus de Amor, sinal de como, trabalhados e refeitos pelo Teu Espírito, alimentados pela Tua vida, nos queres apóstolos sempre em peregrinação.

 

 

 

(AZEVEDO, Carlos A. Moreira - Ao Deus de todas as manhãs. Prior Velho: Paulinas, 2007)

 

 

 

A Vieira ou concha

Desde a Antiguidade que a concha é associada ao renascer da vida, ao mistério e à beleza (basta recordar Afrodite, a deusa do amor, nascida de uma concha). O facto de as pérolas se formarem em certas "conchas" (as ostras), sempre fascinou o Homem.

 

A vieira (plecten jacobeus) é uma concha bivalve que alberga um molusco comestível e é associada à peregrinação a Santiago de Compostela, já que, desde o achamento do túmulo do Apóstolo, no século XIX, foi e é uso dos peregrinos trazerem desta cidade uma vieira como recordação da peregrinação.

 

Qual é a origem desta tradição? São várias as versões, embora haja alguns elementos que são comuns.

 

Diz uma lenda que, quando a barca que trazia o corpo do Apóstolo se acercou perigosamente da costa galega, um cavaleiro que na praia disso se apercebeu, não hesitou e avançou com o seu cavalo pelo mar adentro, para prestar auxílio. Não conseguindo vencer o mar, o cavaleiro encomendou a alma a São Tiago e logo as ondas se teriam acalmado, seguindo a barca o seu caminho em segurança e o cavaleiro e a montada voltaram à praia sãos e salvos. Porém, o cavalo viria revestido de vieiras...

 

Outra lenda refere que o cavaleiro era um noivo galego que galopava pela praia a caminho da capelinha onde a noiva o esperava, para se casarem. Ia atrasado e, numa pequena baía, para avançar mais rápido, tentou cortar caminho pelas águas revoltas que o engoliram e o terão levado a invocar o santo: "Meu Santiago valei-me, que deixo viúva sem ter casado!". As águas terão amansado e o cavaleiro pôde continuar o seu caminho, mas para espanto da noiva e de todos, o cavalo vinha coberto de vieiras...

 

Ainda outra lenda afirmava que, quando Teodoro e Atanásio amarraram a barca com o corpo de Tiago na praia de Iria Flavia (no Pádron), repararam que ela vinha com o casco coberto de vieiras.

 

Provavelmente, a origem deste uso das vieiras deve-se à profusão de conchas disponíveis na região e, por outro lado, a maioria dos peregrinos não as conheceria; alguns ter-se-ão lembrado de levar uma para casa, atestando a sua passagem no local. Era ainda um artefacto usado para beber água de um ribeiro ou fonte, para refrescar a cabeça num dia de calor.

 

A vieira era envergada cosendo-a na esclavina (uma espécie de fato-capote feito de tecido grosso de lã, que protegia do frio e calor, atado à cintura com um cinto de corda) ou na aba da frente do chapelão ou pendurada ao pescoço (actualmente é esta a situação mais comum).

 

 

(CARDOSO, António Homem; ALMEIDA, Lourenço de - O Caminho Português de Santiago. Estoril: Lucerna, 2005; Imagem disponível em http://www.caminhoportugues.org/index2.htm)

Compostela e o Ano Santo Jacobeu

Na próxima sexta-feira, dia 25, celebra-se a festa de S. Tiago, Apóstolo, que é venerado em Compostela.

 

Mas, afinal, o que significa compostela? A "compostela" é um documento que os peregrinos podem obter à sua chegada a Santiago, desde que provem que peregrinaram a pé ou a cavalo (devendo ter percorrido pelo menos 100 quilómetros) ou de bicicleta (tendo que percorrer 200 ou mais quilómetros). A emissão do documento é feita pela Oficina do Peregrino. É escrita em latim e tem o nome do peregrino, sendo um atestado de que o seu titular peregrinou a Santiago de Compostela, servindo também de recordação de uma experiência espiritual e física única. Há muito que a "compostela" podia ser obtida, mas a sua emissão sistemática é relativamente recente. No passado, estes documentos tinham grande importância, pois atestavam a condição de peregrino e permitiam-lhe beneficiar de ajudas, ao longo do caminho, que não eram concedidas a um simples viajante.

 

O que é o Ano Santo Jacobeu? É muito antiga a tradição de considerar certos dias, meses ou anos especiais: os judeus instituíram, cada 7 anos, o "ano sabático", em que pouco ou nada se trabalhava, não se cobravam dívidas e libertavam-se escravos. Possivelmente, os anos santos dos cristãos terão tido origem nos anos sabáticos dos judeus. Anos santos são anos em que, em determinados santuários, os peregrinos que os visitarem, com espírito piedoso e cumprirem certos preceitos, obterão benefícios espirituais especiais. O Papa Calisto II decretou pela primeira vez como Ano Santo de Santiago de Compostela o ano de 1112, mas foi Alexandre III que, em 1179, decretou a sua perpetuidade, estabelecendo que sempre que num ano o dia de Santiago, 25 de Julho, coincidisse com um domingo, esse ano seria declarado ano santo. A cadência é de 11, 6, 5 e 6 anos (o último foi 2004 e os próximos serão 2010, 2021 e 2027). É corrente referir-se aos anos santos de Santiago como anos santos jacobeus (ou jacobeo, em castelhano, e xacobeo, em galego), já que Tiago e Jacob são o mesmo nome.

 

 

(CARDOSO, António Homem; ALMEIDA, Lourenço de - O Caminho Português de Santiago. Estoril: Lucerna, 2005; Imagem disponível em http://www.archicompostela.org/Peregrinos/Imagines%20comunes/la_Compostela.JPG)

Um ano a caminhar com São Paulo: "Pela graça de Deus sou o que sou"

Como terá sido realmente a conversão e vocação de Paulo? Comparando os textos (Act 22,3-21; Fl 3,2-11; Gl 1,11-24), notamos diferenças, algumas decorrentes do contexto histórico e literário em que foram escritos, outras indicativas da dimensão sobrenatural do acontecimento, pois sendo uma manifestação de Deus, torna-se díficil, indescritível, passá-lo à linguagem humana. Porém, há um elemento que é comum a todos os textos: a sua relação com o Evangelho da morte e ressurreição de Cristo.

 

Na 1ª Carta de São Paulo aos Coríntios (1Cor 15,1-11), Paulo refere que "sou o menor dos Apóstolos, eu que nem sou digno de ser chamado Apóstolo, pois persegui a Igreja de Deus. Mas, pela graça de Deus sou o que sou; e a graça que me foi dada, não foi estéril. (...) a graça de Deus que está comigo." Paulo insiste na graça de Deus. Porquê? De que graça se trata?

 

Em grego, graça diz-se kharis e tem a mesma raiz verbal de alegrar-se. Originalmente, aplicava-se à atitude ou gesto em que um superior se voltava e inclinava para um inferior, não porque este o merecesse, mas apenas pelo bem que lhe queria e a alegria que lhe dava. Este gesto é expressão de amor, amor até à exaustão. E foi exactamente isso que Deus fez inesperadamente por meio de Seu Filho (Rm 5,6-8; 8-32). Cristo morreu pelos nossos pecados, quer dizer, em total comunhão com Deus, abriu-nos o caminho para Deus e para a vida que só Ele pode dar (Rm 3,24), fazendo da Sua morte a entrega da vida por nós. Por isso, Deus o superexaltou (Fl 2,9) e, ao ressuscitá-Lo para a glória, perpetuou esse amor para além do tempo e espaço. Assim, a própria manifestação do Ressuscitado, em que Deus oferece esse amor gratuito, é, também ela, uma graça, que transforma radicalmente quem a recebe.

 

E foi nessa graça que Paulo, como muitos outros, teve a graça de participar. No seu caso, a graça foi maior pois recebeu-a em plena perseguição da Igreja de Deus. Por isso, Paulo se chamou a si mesmo (ou outros, desdenhosamente, o chamaram) de aborto, ou seja, se Deus o tinha segregado desde o seio materno para o constituir mensageiro do Seu Filho (Gl 1,15), então Paulo, desde o seu nascimento até encontrar Cristo, não passou de um nato morto. Foi tal a transformação que Deus operou em Paulo, que ele próprio em 2Cor 4,6 (e baseando-se em Gn 1,3 e Is 49,6) a interpreta como uma verdadeira criação.

 

É assim que Paulo passa a irradiar o que conhece, ou Aquele por quem foi conhecido, e o Evangelho passa a fazer parte integrante da vida de Paulo: alguém cuja vida é uma expressão do conteúdo anunciado. Também nós só precisamos de nos deixar conquistar e alimentar pela graça que o Apóstolo nos oferece nesta passagem do Evangelho. Porque não voltar a lê-lo?

 

 

(OLIVEIRA, Anacleto - Um ano a caminhar com S. Paulo. Palheira: Gráfica de Coimbra,2008)

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