Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Blogue da Paróquia do Santíssimo Sacramento

Blogue da Paróquia do Santíssimo Sacramento

Quebrando a teia do silêncio

26.09.07 | ssacramento
No Quénia, onde são produzidas grande parte das flores que estão à venda na Europa, o crime sexual tornou-se uma praga. A revista Além-Mar, nº 560, fala-nos dos esforços de uma mulher que procurou quebrar a cultura do silêncio sobre este problema.

"Uma mulher iniciou uma campanha para educar os quenianos sobre a necessidade de denunciar ofensas sexuais. (...) Naivasha, uma pequena cidade nas margens do lago do mesmo nome, 100 quilómetros a noroeste de Nairobi, no Quénia, ganhou notoriedade no passado recente devido à escalada de casos de violação, de atentados ao pudor e de incesto. Mal passa uma semana sem que ocorra um incidente.

Mas os esforços de uma só mulher estão agora a render dividendos. Rahab Wairuri é a directora do Grupo de Apoio aos Desfavorecidos de Naivasha (NADISGO, na sigla inglesa), que foi criado em 2003. O grupo tem estado envolvido no apoio às vítimas e na sensibilização dos habitantes para a importância de denunciar as ofensas sexuais. (...) Em 2001 (...) perceberam que mulheres e crianças sofriam em silêncio: «As mães não sabiam o que fazer depois de encontrarem os maridos a desflorar as suas filhas.» As mulheres, acrescenta, tinham receio de denunciar os seus maridos e tentavam conservar os casamentos. Outras achavam a situação demasiado vergonhosa: ao denunciarem os maridos, tornar-se-iam assunto de todas as conversas. Algumas vítimas temiam também denunciar os criminosos, porque sabiam que estes acabariam por ser libertados. «Por ignorância, quando alguém era detido, levado a tribunal e lhe era concedida caução, era absolvido da acusação. E as vítimas mantinham-se em silêncio para não serem atacadas outra vez pelo mesmo indivíduo.» (...) Em 2004, o NADISGO mudou de estratégia e começou a informar as mulheres sobre questões como a violação ou o atentado ao pudor. Wairuri e as suas colegas começaram a divulgar numa escola o que a lei diz acerca de ofensas sexuais e as respectivas penas, a alertar para a importância de denunciar esses casos. Foram também a barazas (reuniões comunitárias, na língua suaíli) organizadas por chefes, e logo as pessoas começaram a aparecer. As pessoas também não sabiam como era importante procurar ajuda nas 72 horas após a violação. «Se uma vítima é violada ou molestada, pode iniciar o tratamento que ajudará a impedir que contraia o HIV/SIDA. Mas essa janela de esperança fecha-se no espaço de três dias», explica.

De igual modo, as pessoas desconheciam o procedimento a seguir para denunciar os autores dos abusos. O ministro da Educação deu uma ajuda, permitindo aos membros do Grupo de Apoio falar com os alunos sobre os crimes sexuais e o que fazer se fossem vítimas de abusos. As pessoas aprenderam a ultrapassar o silêncio e começaram logo a procurar a ajuda da polícia. O NADISGO também se dedicou à tarefa de ajudar as vítimas a denunciar os abusos à polícia e a levá-las ao hospital para exames e tratamentos. «Também seguimos os casos quando são levados a tribunal, e por vezes ajudamos as vítimas a irem a tribunal, pois a maioria desconhece os procedimentos legais», diz.

Wairuri diz que, só no ano passado, 180 atentados ao pudor, 90 violações e 16 casos de sodomia foram denunciados nos escritórios da NADISGO. Está contente por ter ajudado a quebrar a política do silêncio. As pessoas estão agora informadas e, em algumas áreas, as comunidades já estão a ajudar as vítimas a procurar apoio. (...)

 Mas esta luta não tem estado isenta de oposição. Wairuri recorda um incidente que ocorreu no ano passado, quando um político local e representantes provinciais da administração se aproximaram do grupo e lhe pediram para terem cuidado nas suas campanhas, porque estavam a afugentar os investidores. Naivasha é o principal centro de floricultura no Quénia e o político não estava contente com a publicidade negativa que a cidade começava a ter.  (...)

Wairuri acredita que esta guerra pode ser ganha no Quénia se a cultura do silêncio for vencida. «Se as pessoas deixarem de ficar caladas quando são violadas ou vítimas de qualquer outra forma de abuso sexual, podemos ganhar», assegura.

Wairuri é uma mulher rechonchuda com um sorriso fácil, o oposto do estereótipo da feminista furiosa. Acredita na bondade natural dos seres humanos, e que tais crimes são alimentados pelas condições de vida inumanas das pessoas que trabalham nas estufas de floricultura. «Esta é uma caminhada de mil milhas e tem de começar com um passo. Com a melhoria das condições de vida dos trabalhadores e com uma maior consciência tanto da sua dignidade como da dos seus filhos. Num futuro próximo, o crime sexual desaparecerá por completo e as mulheres e as raparigas viverão sem medo.»



(http://www.alem-mar.org/cgi-bin/quickregister/scripts/redirect.cgi?redirect=EElpVFkuVAHfCGpSPu)