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Blogue da Paróquia do Santíssimo Sacramento

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Trabalho

22.10.07 | ssacramento
"Trabalhar até os burros trabalham. O que é preciso é saber trabalhar."
Quando lembro este enigmático conselho, bebido no leite de minha mãe, ocorre-me a imagem do pobre animal preso às voltas da nora ou a resfolegar, aborrecido, impotente e resignado à frente da charrua.
No seu suor não há humidade criadora. Apenas o sal dos suores estéreis e o vazio do trabalho obrigado. Não há liberdade que cria, há imposição que amarfanha. Não há entusiasmo, mas palas escuras a riscar rotinas, à espera da noite que lhe traga a cevada à manjedoura.
O burro da imagem que me visita caminha indiferente às estações. Avança por um sulco paralelo àquela procissão da vida que, diria Gibran, majestosa e altivamente submissa, caminha para o infinito.
Abro o Livro do teu diálogo connosco, Senhor, e vejo que, tal como Yahveh no Antigo Testamento, também Tu usas títulos e comparações do mundo do trabalho: o pastor, o vinhateiro, o pescador, o semeador, o médico, a dona de casa... e não foste Tu também operário, filho de carpinteiro?
Peço-te três coisas nesta manhã:
Não nos deixes cair na tentação da preguiça, esse estranho hábito que nos faz descansar antes de trabalhar e repousar nos celeiros colheitas antigas. Que no trabalho encontremos a melodia da vida e o caminho que nos conduz.
Não nos deixes cair na agitação que envenena os sorrisos, no trabalho desenfreado que é maldição e desejo de esquecermos quem somos. Que saibamos a medida certa entre a entrega desmedida e o descanso que nos recria.
O terceiro dos meus pedidos, Senhor, faço-o pensando nos desempregados. Não imagino um personagem mais trágico que qualquer Hamlet ou Édipo, a não ser um trabalhador - sobretudo se com uns quantos filhos - que não consegue arranjar emprego.
Peço-te: segreda-lhes a coragem dos que teimam em manter-se de pé; dá-lhes a serenidade que nasce da certeza do teu amor; a ousadia e a tenacidade capaz de forçar as circunstâncias a desafiar os impossíveis.

(MANUEL, Henrique - Mas há sinais.... Prior Velho: Paulinas, 2004)

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